Na tentativa de selecionar os melhores embriões para a transferência, o Teste Genético Pré-implantacional (PGT) tem sido utilizado cada vez com maior frequência.
O PGT é um procedimento diagnóstico tradicionalmente utilizado para aumentar as chances de gestação e minimizar o risco de aneuploidia fetal (alterações cromossômicas).
Existem sete tipos de PGT:
- PGT-A: para pesquisa de aneupoloidias cromossômicas
Chamamos de aneuploidias as anormalidades cromossômicas numéricas nos 24 cromossomas existentes em uma célula (22 autossomas e 2 sexuais- X e Y). Faz-se este estudo por meios de técnicas de biologia molecular a partir do DNA extraído do embrião. Para isso, é realizada uma biopsia embrionária em que algumas células do embrião são extraídas. Os embriões considerados euplóides (com conjunto normal de cromossomos) podem ser então transferidos para o útero ou criopreservados.
O PGT-A tem sido indicado para casais inférteis que não tenham qualquer histórico familiar de doenças genéticas hereditárias, casais com história de abortamento de repetição, falha repetida de implantação ou casais que tenham um filho afetado. O PGT-A também tem sido indicado para casos de idade materna avançada (≥38 anos) e casos de fator masculino grave. Outra indicação do PGT-A é a seleção do sexo em casais com histórico de doenças ligadas ao cromossomo X. Entretanto, estudos recentes não verificaram nem o aumento das taxas de gestação nem a redução das taxas de abortamento, não havendo, desta forma, indicação da sua realização como rotina nos casais em tratamento de reprodução assistida.
A técnica de biologia molecular mais utilizada atualmente para estudar as aneuploidias a partir do DNA do embrião é o sequenciamento de nova geração (NGS). O NGS nos permite observar a quantidade de material genético dos embriões. Após as análises moleculares, os embriões podem ser divididos em duas categorias gerais: euplóides que são aqueles que apresentam um número normal de cromossomos (46 cromossomos: 22 pares de autossomos e 1 par de cromossomos sexuais) e aneuplóides, (alteração do número de cromossomas para mais ou para menos, tanto nos autossomos como nos cromossomos sexuais.
- PGT para detecção de desordens monogênicas (PGT-M)
O PGT-M é utilizado para detectar doenças monogênicas, ou seja, de um único gene. Tais desordens acontecem por mutações em uma região definida do DNA ou em um gene específico. Podemos citar como as mais frequentes, doenças como: anemia falciforme, fibrose cística, distrofia muscular de Duchenne, doença de Tay-Sachs, síndrome do X Frágil, talassemia e atrofia muscular espinhal.
Atualmente é possível realizar PGT-M para qualquer doença genética a qual se conheça previamente a mutação, mesmo que seja uma mutação rara. As mutações são muitas vezes hereditárias, portanto, casais com histórico familiar de doenças monogênicas são susceptíveis a ter uma criança afetada.
- PGT para seleção de embriões compatíveis com o antígeno leucocitário humano (PGT-HLA)
Outra importante aplicação do PGT, apesar dos debates éticos, é a tipagem HLA. O PGT-HLA é uma nova abordagem para o tratamento de doenças congênitas ou adquiridas, para as quais ainda não há terapia disponível. Por meio desta técnica é possível identificar embriões com HLA compatíveis com o HLA de irmão mais velho para um futuro transplante de células-tronco. As células-tronco hematopoiéticas são coletadas do sangue do cordão umbilical ou da medula óssea do irmão doador para serem usadas para transplante e cura do irmão afetado.
De fato, a chance de se encontrar um doador com compatibilidade HLA, mesmo dentre membros da família, é limitada, portanto o PGT-HLA surge como uma ferramenta prática e atraente para terapias com células-tronco.
- PGT para detecção de rearranjos cromossômicos estruturais (PGT-SR)
É a técnica utilizada para casais portadores de alterações cromossômicas que envolvem rearranjos estruturais ou translocações. Os rearranjos estruturais são relativamente comuns e, dependendo do tipo, podem ter ou não um efeito fenotípico.
Isso ocorre porque os rearranjos estruturais podem ser equilibrados (translocações e inversões), caso o genoma tiver o complemento normal de material cromossômico ou desbalanceados (deleções e duplicações), se houver material ausente ou adicional. Havendo um rearranjo equilibrado, seus portadores não apresentam sinais ou sintomas clínicos. Entretanto, se não-equilibrado, podem resultar em abortamento, morte fetal ou nascimento de uma criança afetada, com sinais clínicos.
Alguns exemplos de anomalias causadas por rearranjos não equilibrados são: Síndrome Cri-du-chat, Síndrome de Williams, Síndrome de Russel Silver, Síndrome de Prader-Willi e a Síndrome de Angelman.
Para a realização deste teste-diagnóstico, métodos como a hibridização in situ fluorescente e microarray podem ser utilizados. Mais recentemente a tecnologia NGS tem sido utilizada, permitindo a avaliação e todos os cromossomos.
- PGT combinado (PGT-A + M)
O PGT-M e o PGT-A podem ser realizados simultaneamente na mesma amostra de biópsia embrionária em uma estratégia baseada no PCR em tempo real (RT-PCR). Este teste é recomendado para casais em que um dos parceiros é portador de um distúrbio monogênico e tem uma das indicações PGT-A, como descritas anteriormente.
- PGT para risco de doenças poligênicas (PGT-P)
As doenças poligênicas, também conhecidas como doenças multifatoriais, são um conjunto de doenças hereditárias produzidas pela combinação de múltiplos fatores ambientais e mutações em vários genes (vários marcadores genéticos), geralmente de diferentes cromossomos.
Sendo assim, no PGT-P, o risco de um indivíduo apresentar determinada doença é calculado através de um Score, gerado a partir de dezena de milharas de marcadores distribuídos por todo nosso genoma.
Algumas das doenças poligênicas, das quais o risco pode ser estabelecido por meio de PGT-P são: asma, fibrilação atrial, carcinoma de célula basal, câncer de mama, cálculos biliares, glaucoma, gota, ataque cardíaco, colesterol alto, hipertensão, hipotiroidismo, melanoma maligno, câncer de próstata, câncer testicular, diabetes tipo 1 e 2.
- PGT não invasivo (NI-PGT)
A biópsia embrionária, independentemente do estágio de desenvolvimento do embrião em que é realizada, é um processo invasivo, que pode afetar as taxas de sucesso do tratamento. Alguns trabalhos chegam a apontar uma redução de 15% nas taxas de gestação de uma paciente que foi submetida ao PGT.
As duas técnicas de NI- PGT são: (a) blastocentesis: que consiste na aspiração e posterior análise do fluido existente dentro do blastocisto e (b) o exame dos meios de cultura onde o embrião foi cultivado, onde se busca o DNA embrionário liberado.
Os principais riscos associados a esse tipo de PGT são a contaminação genética (DNA materno, paterno ou de laboratório), a maior taxa de morte celular em embriões aneuplóides e dependência da rotina laboratorial. Muitos estudos têm sido realizados nos últimos anos para avaliar essa técnica e muitos deles relataram taxas de sucesso moderadas e eficácia ainda acanhada.
FAQ
O PGT é um exame realizado nos embriões antes da transferência para o útero. Ele tem como objetivo ajudar na seleção dos melhores embriões, podendo aumentar as chances de gestação e reduzir o risco de alterações cromossômicas no feto.
O PGT é utilizado para analisar o material genético dos embriões e identificar possíveis alterações. Com isso, é possível selecionar embriões com maior potencial de desenvolvimento, contribuindo para decisões mais seguras durante o tratamento de reprodução assistida.
O exame é realizado a partir de uma biópsia embrionária, na qual algumas células do embrião são retiradas para análise do DNA. Esse material é estudado por técnicas de biologia molecular, permitindo identificar alterações genéticas ou cromossômicas.
O PGT-A avalia alterações no número de cromossomos dos embriões. Pode ser indicado em casos como idade materna avançada, histórico de abortamentos de repetição, falhas de implantação ou fator masculino grave. No entanto, não é recomendado como exame de rotina para todos os casais.
O PGT é utilizado com a proposta de aumentar as chances de gestação e reduzir riscos genéticos. Porém, estudos recentes não confirmaram aumento nas taxas de gravidez nem redução nas taxas de abortamento, o que limita sua indicação universal.
O PGT-M é um teste voltado para identificar doenças genéticas causadas por mutações em um único gene. É indicado principalmente para casais com histórico familiar de doenças hereditárias, como anemia falciforme, fibrose cística e outras condições genéticas.
O PGT-SR é indicado para casais com alterações estruturais nos cromossomos, como translocações ou inversões. Essas alterações podem não causar sintomas nos pais, mas podem levar a abortamento, morte fetal ou doenças no bebê.
O PGT-HLA permite identificar embriões compatíveis com o sistema imunológico de um irmão mais velho. Essa técnica pode ser utilizada em situações específicas, com o objetivo de possibilitar transplantes de células-tronco em casos de doenças graves.
O PGT combinado permite avaliar, ao mesmo tempo, alterações cromossômicas e doenças genéticas específicas. É indicado quando há risco de doença hereditária e também critérios para análise cromossômica no mesmo casal.
O PGT-P avalia o risco de doenças poligênicas, que envolvem múltiplos genes e fatores ambientais. Entre elas estão condições como diabetes, hipertensão, câncer de mama e outras doenças complexas.
Sim. O PGT não invasivo (NI-PGT) analisa o material genético liberado pelo embrião no meio de cultura ou no fluido do blastocisto, sem necessidade de biópsia direta. Essa abordagem ainda está em estudo e apresenta resultados moderados.
Sim. A biópsia embrionária é um procedimento invasivo e pode impactar as taxas de sucesso do tratamento. Além disso, o PGT não invasivo ainda apresenta limitações, como risco de contaminação genética e resultados com eficácia considerada moderada.
